Perene inconstância: Grimmelshausen
por Rodrigo Gurgel
Rascunho 118
O aventuroso Simplicissimus
Hans Jacob Christoffel von Grimmelshausen
Trad.: Mario Luiz Frungillo
Editora UFPR
664 págs.
O mais grato – e infelizmente raro – prazer do crítico literário é qualificar um livro de genial. Pouco importa que ele não seja o primeiro a reconhecer o valor da obra, admirada por todos os que amam e estudam a literatura do Ocidente, pois lhe basta a satisfação de afirmar a seus poucos leitores: leiam, é genial – O aventuroso Simplicissimus, de Hans Jacob Christoffel von Grimmelshausen, lhes concederá exatamente o que promete em sua epígrafe: “afastar-se da loucura e viver onde a paz mora”.
Guardadas as devidas proporções, Grimmelshausen representa, para o barroco alemão, o que Manuel Antônio de Almeida e seu Memórias de um sargento de milícias significam para o romantismo brasileiro: arejamento, limpeza dos entulhos retóricos, do exagero exótico, da adjetivação excessiva; e predileção pela ironia. Para um tempo rico em poetas – e que teve grandes nomes, como o jesuíta Friedrich Spee, Paul Gerhardt (cujos versos foram musicados por Bach), Angelus Silesius e Andreas Gryphius (que também foi dramaturgo) -, é notável a escolha de Grimmelshausen pela prosa. Anônimo, esse empobrecido descendente de aristocratas tinha perfeita consciência de que seu trabalho ia na contramão da época. Movido por uma inesgotável sofreguidão de narrar, ele desprezou os falsos eruditos, os pretensiosos que produziam versos fúteis, ocos, e pôde, vivendo longe da influência deles, entregar-se ao romance, gênero que consolidou.