Paulo Bentancur
O Globo / Data: 4/2/2005
O frisson já começa no sumário, “Tábua de pesadelos”. Podia ser pretensão do autor, ou exagero na forma e antecipação do que poderia vir a acontecer, o que retiraria a força do conjunto. Nada disso. As vinte histórias que seguem à epígrafe — também tenebrosa — mostram que Giron parte do básico (não tem medo de escrever, e isso significa muita coisa) para chegar ao máximo: deixar o leitor sem pai nem mãe. E com um livro nas mãos trêmulas. Após a leitura, claro. Antes, começa com a dedicatória desconcertante: “Para as leitoras mais vorazes, as gavetas”. Ironia com a pouca leitura que há no país, em que é normal abandonar um livro numa gaveta? Provavelmente não. Referência ao processo do próprio Giron? Parece que é isso.
O autor é pesquisador obsessivo e demonstra isso pelos temas ricamente nuançados, pela linguagem trabalhada em níveis cultos ou “incultos”, pela estrutura renovada sem ser moderninha, buscando na tradição a mais exigente um resultado conseqüente. As “gavetas” devem ter ajudado Giron a atingir o seu nível de excelência, como nos contos “Execrável Belvilacqua ou eternos chefes” e “Letra morta”. Cheiro de mofo, éter e formol Entre duas dezenas de histórias não há uma que não cheire a mofo, éter, formol, algo vago entre o nauseante e o inebriante, de um inebriar cujo encanto brota de uma vibração que, se não for macabra (palavra simples demais e empobrecedora para a atmosfera “delirante”), será de um passadismo pessimista atravessado pela severa sombra de uma ameaça que não ousa dizer seu nome — nem o nosso. Eis o tema de Giron: a identidade fugidia de suas personagens que mais parecem fantasmagorias com nome, sobrenome, ocupação, sentimentos.
Na pressa, se pode pensar no fantástico, ou no surreal. Nada disso. Há um clima instalado intencionalmente de fim de século. No caso, o XIX, embora o tom do XX aí compareça também: Giron tem fôlego verbal para atravessar 150 anos de vozes que se modulam de acordo com a história que ele ora renova, ora envelhece, para nos desnortear. Sempre são dramas, dos mais fatais aos mais absurdos, filtrados por uma fina e quase imperceptível ironia. A do título do livro chega a ser óbvia. Mas é só o portal do inferno, a partir do qual não se tem mais esperança. Já no primeiro conto, uma crônica lírica sobre as precariedades do amor sob o jugo do corpo facilmente decomposto. A alma se purifica sem jamais sustentar a certeza de continuidade ante o amante, que teme a fuga quando se diz um “já volto” como quem vai banhar-se em sais sagrados e voltar renovado. Só que no caso, a musa faz o papel cadavérico de quem é quase só despojos e precisa se refazer (uma mulher normal retocando a maquiagem, entre a musa e a morta rediviva mais tarde). Giron é uma ameaça. O leitor penetra, assombrado, em alcovas que velam sonâmbulos e sentenciados ainda que os una algum vínculo mais forte. “A mais estátua” é um exemplo desse jogo que no ficcionista nasce de um tempo indistinto (nunca parece nossa época nem se recolhe a um passado específico), aliado a um jogo de sedução que se traduz, simultaneamente, em rejeição. Não se sabe. A escolhida, jovem, numa brincadeira quase infantil, será aquela destinada aos abusos do fauno ou à condução para um convento, onde se tornará a prisioneira do próprio desejo insatisfeito, manifesto já na brincadeira, entre o temor de ser tocada e a excitação com a possibilidade. O amante busca a amada da qual nem o nome sabe Em “Do século crescendo”, há um prisioneiro cuja clausura é seu mirante e dali ele vê o tempo e, como em praticamente todos os textos do livro, a realidade se move, se transforma, aceita outro espaço e outro tempo. Há quase uma regra que o autor não quebra: a de um depoente cujo olhar narra a nostalgia de uma impossibilidade.
Numa história de amor onde o amante busca a amada da qual nem o nome sabe, é rechaçado pelo dono da propriedade onde ela está, e o que se supõe é que se trate de um animal o objeto do desejo, não de uma mulher. Na escrita “atropelada” de Giron, sem vírgulas, com os diálogos superpostos, o “Até nunca mais por enquanto” do título do volume pode ser duas frases: a do homem que bate a porta (“Até nunca mais!”) e o revide do enamorado que não se entrega facilmente à recusa (“…por enquanto”).,/p> O ritmo compacto resulta, dessa forma, numa vertiginosa exposição. Por um lado, a abrandar os horrores descritos em detalhamento diante do leitor; por outro lado, em perspectiva enviesada, a acelerar essa terrificante ficcionalidade, esse desconcerto permanente de seres e situações que não identificamos a não ser como sinais de um mundo remoto e, ainda assim, nosso.
PAULO BENTANCUR é escritor