Henrique Schneider
Eles já andavam pela trigésima cerveja quando alguém resolveu perguntar:
“Mas afinal de contas, aquilo que o Henrique Schneider escreve no ABCDomingo é conto ou é crônica?”
A mesa teve um segundo de estupefação; depois, como estavam todos bêbados mesmo e àquela hora qualquer assunto servia, resolveram seguir com a conversa. O Catraca e o Eraldo não tinham idéia de quem fosse o Henrique Schneider, mas ainda assim achavam que ele escrevia crônicas. O Juarez não sabia bem como classificar os textos, mas achava que eles não eram grande coisa. O Getúlio tinha razões para achar que era mesmo crônica:
“Ele é cronista do ABC.” – decretou, em sua lógica simples.
“Não, ele é colunista do jornal.” – corrigiu o Melita, que ninguém sabia porque tinha este apelido.
“Então não sei mais nada.” – comentou o Getúlio.
E começaram todos numa discussão acalorada sobre a matéria, inclusive os dois que não sabiam quem era o tal de Henrique Schneider. Uns defendiam que era crônica, outros que era conto. O Juarez começou a entabular uma tese de que não era nem conto, nem crônica, mas cochilou antes de terminá-la. Só o Manuel não dizia nada; apenas bebia sua cerveja como se estivesse sozinho. Só resolveu opinar quando a discussão já chegava aos limites da irrealidade:
‘É conto. É conto e tá acabado.”
Os companheiros da mesa mantiveram um silêncio de expectativa, aguardando a explicação.
“Um conto é uma história inventada. É ficção. E o Henrique Schneider sempre inventa as histórias do jornal. Por isso, é conto.”
“Como é que tu sabe?” – perguntou o Catraca.
“Porque eu sei. Vê só. Na próxima quarta-feira, às oito e meia da noite, ele vai lançar um livro na Feira do Livro de Porto Alegre, chamado ‘O Grito dos Mudos’. Todo mundo está convidado. Se ele fosse cronista, era só anunciar o lançamento e tudo bem. Como é contista e tudo o que escreve no ABCDomingo é ficção, prá não quebrar a escrita ele precisa criar uma história inteira só para fazer essa propaganda. Até inventar um cara chamado Catraca ele inventou! É ou não é uma obra de ficção? Por isso, é conto.”
Com o que a mesa inteira concordou. Inclusive o Juarez, que acordou de seu cochilo bêbado só para dizer que eram uns continhos muito meia-boca.