25 jan 2010
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Quando nos tornamos invisíveis

por Dora Lorch

Quem mora em cidades grandes como São Paulo, quem trabalha fora e tem outros afazeres, sabe o quanto a correria do dia-a-dia deixa a desejar. Especialmente nos relacionamentos interpessoais. É difícil encontrar até com pessoas bem próximas, falar no telefone, quanto mais com os estranhos!

Curioso é constatar que há pessoas que encontramos cotidianamente e nada sabemos a seu respeito. Nem seu nome. Pode ser o porteiro, o carteiro, o lixeiro, a atendente da loja, a recepcionista. Com freqüência nos esquecemos até das feições das pessoas que nos cercam. Será falta de tempo ou essas pessoas são invisíveis?

O fenômeno da pessoa invisível foi descoberto por acaso quando um estudante de psicologia social foi analisar ocupações sem qualificação e decidiu observar os garis. Para isso, resolveu trabalhar com eles, de uniforme e tudo. No começo, percebeu que havia uma certa distância entre ele e os garis, como se eles sentissem que Fernando (era este o nome dele) era de outra classe social.

Aos poucos a distância foi cedendo, até que um deles o convidou para almoçar no bandejão da Cidade Universitária. Como ele havia esquecido o dinheiro na sala de aula, decidiu buscá-lo vestido como estava, ou seja, de uniforme. Passou por escadas, salas e corredores, sofreu esbarrões de amigos, cruzou com professores e, para seu espanto, ninguém sequer olhou para o seu rosto. De repente, compreendeu que aquele uniforme o tornava invisível. Tremendo da cabeça aos pés, sentiu na pele o peso do preconceito.

Esta experiência foi tão marcante que se transformou em tese de mestrado e em livro[1]. Fernando também pode perceber a incrível diferença entre pontos de vista, como o conceito de um belo dia. Para ele, um dia de sol, com céu azul sem nuvens era um belo dia. Já para os garis, era o dia que exigia mais empenho, pois eles trabalham embaixo do sol (e da chuva), sentindo na pele, sem refresco, o calor insuportável do sol a pino.

Outro aspecto me chamou a atenção. Os garis são capazes de distinguir o poder aquisitivo das pessoas pela postura ao andar. Segundo os garis, as pessoas que têm dinheiro andam fazendo barulho, ao passo que os (menos abastados) “peões” andam macio para não serem notados, ficam encolhidos, olham para baixo. De certa forma, colaboram com a invisibilidade. Talvez porque não acreditem que mereçam atenção ou porque se acostumaram a ser invisíveis.

E o que fazem os invisíveis? Alguns aceitam sua posição, outros ficam com raiva e agridem. O que você faria se se sentisse invisível?

Infelizmente, a invisibilidade está bem distribuída no mundo, porque é invisível o aluno que o professor não enxerga nem ouve; o ex-presidiário que não encontra outro emprego (mesmo que tenha sido preso por ter roubado um litro de leite); o ser humano que sofre perto de nós e nós nem percebemos. Mesmo que seja nosso filho. Ou nosso companheiro.

O ser invisível se encolhe e não cresce. Não acha que pode. Nem tenta. Aceita sua condição ou se rebela contra ela, não para crescer e sim para ser visto. É isso que acontece nas escolas: se a escola é incapaz de acolher e proporcionar conhecimento e crescimento aos seus alunos, se os alunos que não aprendem são estigmatizados e excluídos, então a escola terá um bando de estudantes lutando para deixarem de ser invisíveis. Lutando contra a escola que não os enxerga.

Que nesta semana possamos ver e ouvir nossos entes queridos, e as pessoas que nos cercam como queremos que nosso pai veja e ouça nossas preces.

[1] O estudo deu origem ao livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”, o autor do livro é Fernando Braga da Costa.




Nas salas de aulas muitos professores tratam determinados alunos como invisíveis, para demarcar a sua ascendência sobre estes que, geralmente, recebem o “tratamento do gelo docente”, em razão de serem muito visíveis por sua maneira de ser ativos, questionadores, irrequietos, irreverentes, respondões, ou seja, precisarem de atenção. Por isso o tratamento que recebem é tão dolorido e traumático.
Helena Vasconcelos

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