Quanto vale a palavra de uma mãe?
por Dora Lorch
Estamos acostumados a lidar com as pessoas através de rótulos, através das aparências. Ainda mais nas grandes cidades brasileiras, onde o número de trombadinhas assusta. Sabemos que por vezes eles são os laranjas, os que levam a culpa, os que podem fazer e acontecer porque “não vão cumprir pena por serem ‘de menor’”.
Conceitos assim e o medo estão transformando crianças pequenas em bandidos poderosos, permitindo que todas as fantasias possam ser realizadas através de ameaças, que acreditamos que eles vão cumprir. Claro que sempre podemos lembrar que estas crianças aprendem isso em algum lugar, mas quantos pais reconhecem seus defeitos nos filhos? Quantos de nós pais, tios, professores sabem que o que dizemos pode marcar para sempre a vida daqueles que nos circundam?
Foi assim com Pedrinho. Ele parecia muito mais velho, uns 15 anos, quando na verdade tinha nove. Por isso todos o rotulavam de “incapaz”, e este era o nome mais doce que ele tinha ouvido. Por outro lado, se aproveitava do tamanho para dizer barbaridades: estava com sono porque passara a noite bebendo e dançando. Qual o que, dizia a mãe, ia para cama cedo, não saia de jeito nenhum porque era menor de idade. Mas era agressivo. Ameaçava e xingava quem passasse pela sua frente. Como era grande e forte, todos tinham medo e cediam. Assim nasceu o mito. E por isso mesmo foi proibido de freqüentar a escola: era agressivo com os alunos e com os professores.
Esse valentão chegava cheio de não me toques, não me digas, não me contraries, mas encontrava no Florescer aconchego e apoio que ele não tinha em outros lugares. Por isso, amansava e cedia às nossas interpretações e limites. Na verdade, nós o tratávamos com o respeito que as crianças necessitam, inclusive dizendo o que ele podia e o que não podia fazer.
Mas este menino, pois embaixo de toda valentia se escondia um menino, era muito agredido. Tudo que acontecia ele era o culpado. Sempre ele estava o errado. Apanhava até. Até que nós dissemos que não podia. Antes disso era o saco de pancadas do irmão da mãe. E a desculpa era que ele não se emendava. Mas quem não ficaria com raiva de levar sempre a culpa por tudo, de nunca ser elogiado, de nunca ser ouvido? Era como se o que ele ouvisse fosse realidade e ele nem fazia força para mudar porque não pensava que pudesse ter outra escolha.
Aos poucos fomos mostrando para este menino que as pessoas poderiam gostar dele, elogiá-lo, ter prazer em sua companhia. Apontamos que ele poderia ter dificuldades, mas também conseguia fazer um monte de coisas legais. Então a escola resolveu aceitá-lo de volta.
Tudo ia aparentemente bem, até que descobri que ele estava novamente proibido de ir às aulas. Chamei a mãe para saber o que tinha acontecido desta vez, e para minha surpresa ouvi que ele não poderia ir ao colégio porque os professores tinham medo que ele tentasse se matar. Se matar? Como assim? Pedro não conseguia levantar o olhar. Estava que era pura tristeza.
— Pedrinho, porque você está tão triste?
— Nada não.
— Você nem está olhando para mim, está quieto. O que esta havendo?
— Só falo se minha mãe sair da sala.
Depois dela sair ele murmura, inaudível
— Se minha mãe não quer que eu viva, eu mesmo me mato.
O que poderia ter acontecido? Uma briga talvez?
Chamei a mãe e perguntei se ela tinha brigado com ele recentemente. Ela olhou atônita para o filho, puxou-o para seu colo e aos prantos contou que tinha dito que preferia que ele morresse, mas não era verdade, tinha dito só porque estava com raiva. Não tinha imaginado que isso o atingiria tão profundamente. Disse que sempre o amou e continuaria a amá-lo e lutar por ele até o fim da vida dela. Aquele menino de um metro e setenta estava como um feto enrodilhado em seu colo. Ele precisava saber que ela o amava, confiava nele e o queria vivo.
Queremos ser reconhecidos por aquelas pessoas que são importantes para nós. São elas que nos dão os parâmetros do que fazemos bem ou mau. São os entes queridos que nos norteiam. Por isso é preciso cuidado na hora da raiva, para não feri-los demais. Quando a raiva fala mais alto do que a razão, relacionamentos são desmontados, confiança é perdida, arruinando o que demoramos tanto para conseguir. Se você é pai, mãe, tio ou professor, tenha piedade dos que vos cercam. Eles são frágeis e precisam do seu apoio e compreensão. Senão, podem acreditar que são incapazes e parar de tentar…
* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.