Quinhentos

por Henrique Schneider

Ela sorvia o guaraná em goles pequenos, chinelinhos fragilmente amparados nas pernas cruzadas da cadeira e olhando com ansiedade a porta descascada da lanchonete, quando ele entrou. Sentou-se em silêncio, movimentos estudados, como se gozasse a angústia da esposa.

“E aí, conseguiu?” – ela perguntou, urgente.

Ele tomou um gole do guaraná da mulher, parecendo indeciso; talvez não tivesse certeza da resposta. Só então falou:

“Sim.” – e mostrou o dinheiro no bolso.

Ela não evitou o grito, mistura de surpresa, alívio, animação. – “Quanto?” – quis saber.

“Quinhentos.” – disse o homem, fazendo um sinal para que ela falasse mais baixo.

“Nossa mãe! Quanto dinheiro!” – exclamou a mulher: aquilo lhes resolvia o problema dos aluguéis atrasados e ainda sobrava. Não sabia quanto, mas sobrava.

“É.” – orgulhou-se o marido. – “O homem lá disse que não empresta tudo isso para qualquer um. Disse que eu tinha cara de gente boa.”

“Vê só.” – comentou a mulher, olhando meio comovida para o marido: tinha mesmo jeito de gente boa. – “E quando é que precisa devolver?”

“Só no mês que vem.” – respondeu o homem, enquanto apalpava o bolso com certo carinho.

“E quanto tem que pagar a mais?” – ela perguntou, subitamente preocupada.

“Vinte por cento.”

Eles permaneceram em silêncio por um tempo, como se não soubessem se agora valia a pena a dúvida, mas ela precisou perguntar:

“Isso é muito?” – os olhos inquietos, esperando o marido.

“Acho que não.” – ele respondeu, tomando um novo gole do guaraná da esposa. – “Mas se for, a gente dá um jeito.”




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