Ele entrou na farmácia com um jeito tão urgente quanto perdido, parecendo não saber bem o que queria mas querendo assim mesmo.
“Eu preciso de um remédio prá dor.” – pediu ele à atendente.
A mulher, uma jovem morena de olhos vivos e negros, talvez não tenha entendido aquela pergunta genérica.
“Prá dor, o senhor disse?”
“Isso.” – e ele tinha a expressão angustiada de quem estava mesmo sofrendo.
“E onde o senhor está com dor?”
Ele apontou o próprio peito, direto no coração.
“Problema cardíaco?” – ela alarmou-se.
“Não.” – respondeu ele. – “Abandono. A pior dor que o coração pode sofrer. Tem remédio para isso?” – e ele parecia cada vez mais angustiado.
Ela olhou para o homem à sua frente, abandonado como poucos, e percebeu que ele era bonito. Um homem bonito e abandonado. O olhar desvalido de quem não sabe o que fazer, as mãos trementes de ansiedade, o rosto armado para o choro proibido – porque homens não choram nestas horas. Um homem bonito e sofrendo. As coisas sempre podiam ser mais fáceis, pensou ela, enquanto esquecia por um instante de sua condição de balconista e mirava distraída o fundo intranqüilo dos olhos daquele homem.
Ele a olhou para ela – aquela moça bonita de olhos distantes – e achou melhor repetir a pergunta.
“Tem remédio pra isso? Tem remédio prá dor no coração?”
Ela pareceu despertar de um sonho bom e breve. Então pegou um chá calmante qualquer – maracujá ou camomila, sabe-se lá -, escreveu na caixinha o número do seu telefone e entregou-o ao homem à sua frente.
“Tem. Dor no coração sempre tem remédio.” – disse ela.