Rosaura

por Henrique Schneider

Estava tão bonita aquela manhã de domingo, tão ensolarada em suas horas tranquilas, que Romeu interrompeu a caminhada distraída e sorriu ao chamado da cigana.

“Vem cá, moço lindo. Vem ler a sorte.”

Ele estendeu a mão à mulher, bem humorado, e naquele momento pareceu esquecer-se dos seus medos de infância, daquelas mulheres com dente de ouro e jóias pesadas, que vendiam bacias e, em sua imaginação de criança, roubavam crianças de suas casas. Talvez porque fosse manhã de domingo – o mundo parece melhor nestes dias.

A cigana examinou a palma da mão do rapaz e depois esfregou-a como se a acarinhasse. Então levantou os olhos e deles espalhou-se uma luz assustada.

“A mulher da tua vida se chama Rosaura.” – ela disse.

“Rosaura.” – ele repetiu, rindo.

“Não ri.” – ordenou a cigana, seca. – “Isso é coisa séria. Rosaura é minha sobrinha. E está lá, junto às outras. De vestido vermelho.” – e apontou para outro canto da praça, onde outras conversavam, em seus vestidos longos e trajes coloridos.

Rosaura, ele tremeu. Mesmo de longe e sem que ela sequer lhe prestasse qualquer atenção, aqueles olhos de rio verde, os cabelos de azeviche, a pele da cor do mel queimado, o cheiro de sândalo que Romeu desde logo adivinhava seriam capazes de prender alguém para sempre.

“A mulher da minha vida.” – ele disse, subitamente angustiado – e estranhamente em brasas. E de repente. – “Quero falar com ela!”

“Não!” – decretou a cigana velha, num quase-grito.

“Mas se ela é a mulher da minha vida?!”

“É o que está escrito em tua mão. Só isso. Mas o homem da vida de Rosaura não é tu, é outro.” – e, depois de uma pausa – “Está escrito na mão dela.”

“Mas o que eu faço, então?” – e Romeu já se afligia, agora mesmo: a mulher da sua vida recém aparecera e já não podia mais ser dele (os olhos de tantas promessas, os cheiros vários da pele).

“Não sei.” – respondeu a cigana – “Mas teu futuro não é com Rosaura.” – e depois, alisando novamente a mão de Romeu, como se a acarinhasse num consolo impossível. – “E tua vida vai ser muito triste.”




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