Saiba como educar seu cachorro
TweetVeja São Paulo
Por Maria Paola de Salvo e Giovana | 02/04/2008
Diante de uma população de 1,9 milhão de cachorros domésticos (calcula-se que haja mais 2,6 milhões nas ruas, sem dono), não é exagero dizer que eles praticamente tomaram conta da cidade. Labradores, poodles, pit bulls e simples vira-latas estão em toda parte: parques, praças, shoppings, elevadores de condomínio e até restaurantes. A proporção é de um cão com dono para cada seis habitantes. Todos os números relacionados a eles são grandiosos. As 6?000 pet shops paulistanas faturam 720 milhões de reais por ano, e só em 2007 a cachorrada consumiu 255 000 toneladas de ração. Dentro desse universo que não pára de crescer, respeitar as regras da civilidade é fundamental para que a convivência dos bichos com os humanos não seja desastrosa. Veja São Paulo ouviu doze especialistas em comportamento animal e consultoras de etiqueta para listar os dez mandamentos do dono educado. São dicas de como você deve se comportar para que seu cão se comporte
1) Cachorro não é gente.
Não o trate como tal
“Charlie me acompanha no trabalho, nas viagens e nos restaurantes que freqüento, como D.O.M., A Figueira Rubaiyat e Vecchio Torino”, conta a empresária Sandra Habib, referindo-se ao seu west highland white terrier, raça tão chique quanto os lugares a que ela vai. Um filhote desses custa entre 3 000 e 4 000 reais. “Ele é muito educado, fica praticamente invisível nesses locais”, diz ela, acrescentando que acha “ridícula essa história de tratar animal como filho”. É claro que um mimo ou outro não escapa: Charlie tem uma dieta balanceada (não come ração, só alimentos sem sal e sem tempero) e é dono de uma coleção de mais de 400 – 400! – coleiras, algumas delas de grifes como Louis Vuitton, Gucci e Hermès. Para quem pode e gosta, não há nenhum problema em enfeitar o bicho com coleiras riquíssimas ou chamá-lo de “filho”, mas desde que se tenha consciência de que um cão tem necessidades muito diferentes das de um humano. O único ponto em comum é que os cachorros, assim como as crianças, precisam de limites bem estabelecidos para ser educados. “Quando é tratado como gente, o animal passa a agir como um menino ou menina mimada: desobediente e sem limites”, diz o adestrador Joaquim Borges Filho. Vi-ver com o bicho no colo e fazer todas as suas vontades também é péssimo para a saúde psicológica dele. “Se o cachorro não for acostumado desde filhote a ficar períodos de tempo sozinho, ele criará uma dependência da pessoa de referência e acabará sofrendo de angústia e medo”, afirma a psicóloga e veterinária Hannelore Fuchs.
2) Imponha limites.
Há espaço para um líder: ou ele ou você
Os cães são animais que vivem em matilha. Para eles, a hierarquia é fundamental. Entram em parafuso quando não entendem qual posição ocupam: a de dominantes ou dominados. “Eles têm de ter claro quem é o líder para respeitá-lo”, diz o adestrador Alexandre Rossi. “E vão testar essa liderança no dia-a-dia.” Mostre que é você quem manda. Em geral, eles só obedecem para conseguir o que querem (como um petisco) ou evitar o que não querem (uma bronca). Se ele urinou no chão, não adianta balançar a cabeça e soltar um sonoro e forte “não”. Simplesmente aponte ao cão o local correto e diga “aqui”. Ele fez tudo direitinho? Recompense o bom comportamento com biscoitinhos e elogios. Errou? Repreenda-o. Resista às chantagens emocionais do bicho desde o início, quando ainda é um filhote. “Ao seguirem regras, os cães se sentem felizes, porque isso lhes transmite segurança”, lembra o adestrador e analista comportamental Dennis Martin, membro do British Institute of Professional Dog Trainers. E nada de deixar o cão virar o rei do pedaço. Para não estimular o instinto de dominância do animal, o bicho deve poder circular pela casa, mas tem de saber que há regras a ser respeitadas, como, por exemplo, deitar-se somente na própria almofada, no chão. Nada de dormir na caminha da “mamãe” ou do “papai”.
3) Adestre seu bichinho
Aqui vale mais do que nunca a expressão “A educação vem do berço”. A lógica é a mesma usada para as crianças: ninguém se educa sozinho. “O cão precisa ser socializado e civilizado desde filhotinho, e a partir dos 3 meses de idade pode começar a receber os primeiros comandos”, afirma o adestrador Alexandre Rossi. O trabalho de adestramento é feito sempre na presença do dono e pode durar de três a seis meses. Custa entre 40 e 50 reais por aula e não se restringe a ensinar ao bicho truques engraçadinhos para impressionar visitas. O cão só é aprovado quando obedece a, no mínimo, seis comandos básicos, como “junto”, “senta”, “deita”, “vem”, “espera” e “fica”. Com essas habilidades, ele aprende a se comportar diante de outras pessoas, a respeitar ordens e a conviver com estímulos como carro e barulho, por exemplo. Para silenciar o latido incessante de seu jack russel terrier Oscar, a estudante de direito Ana Lucia Germano matriculou-o numa dessas aulas. “Há três meses, ele recebe a visita de um adestrador duas vezes por semana e já está mais tranqüilo”, diz ela. Mas atenção: basta um mês de relaxamento e adeus às boas maneiras conquistadas.
4) A calçada é pública, não privada
Ruas não são banheiros a céu aberto para cães, por mais que alguns donos – gente não civilizada, diga-se claramente – insistam nisso. Portanto, não deixe a sujeira do seu cachorro virar armadilha para os pedestres. Recolher o cocô do animal sempre e imediatamente é obrigação prevista em lei e uma questão de saúde pública. Saia de casa munido com um kit de limpeza: pá, saquinhos plásticos e algumas folhas de papel-toalha para limpar tudo sem deixar rastros. E atenção: não vale argumentar que as fezes viram adubo para as plantas, para escapar do serviço sujo. Ao contrário. Os dejetos podem facilitar a transmissão de doenças. “Caso o animal esteja com parasitas intestinais, pode transmitir moléstias como a ancilostomose, que você pega se pisar no chão contaminado”, explica o veterinário Mauro Lantzman. Faz parte da natureza do cão deixar rastros de cocô e xixi como cartão de visita para outros animais, mas você pode educá-lo a não poluir as ruas. Não o alimente demais. Quanto mais ração, mais fezes. Incentive-o a usar o “banheiro” de casa antes dos passeios. Caso perceba que o seu amigão se fissurou num poste ou arbusto, dê trancos na guia e puxe-o para longe.
5) Na rua, só com coleira, guia e focinheira (quando necessária)
Quer evitar sarna para se coçar? Então não deixe seu animal sair à rua sozinho e, quando passear com ele, use coleira e guia de condução. Previsto em lei, o cuidado evita problemas para ele, para você e para os outros. Raças agressivas e perigosas, como pit bull, rottweiler e mastim napolitano, capazes de ferir e até matar, só podem circular de focinheira e enforcador. A regra vale mesmo para aqueles que, juram os donos, não fazem mal a um mosquito. No último sábado (22), dezenas de cães, inclusive pit bulls, foram flagrados correndo livremente pelo Parque do Ibirapuera. Como sua cadela, da raça buldogue americano, é sempre confundida com um deles, o personal trainer Disnei Sanches costuma sair com o registro geral de Naja no bolso. “Nos parques, os guardas logo vêm cobrando a focinheira”, diz ele. Qualquer que seja a raça, procure soltar os bichos só em locais cercados e destinados para tal, os chamados “cachorródromos”, como o da Praça Buenos Aires e o da Rua Curitiba. Mesmo nesses espaços, não descuide deles. “Machos podem arranjar confusões com outros machos”, adverte o adestrador Dennis Martin. Cadelas no cio enlouquecem até o mais tranqüilo dos cães e, portanto, estão proibidas de sair de casa nesses períodos. Controle bem a guia. “O cachorro deve andar ao lado do dono para não colocar as pessoas da calçada em risco”, diz o adestrador Edison Vieira. Se outro peludo surgir no caminho, mantenha uma distância segura e evite que os cordões dos dois se embaralhem.
6) Vai receber visitas?
Priorize os convidados
Um bom anfitrião deve estar consciente de que seu cãozinho tão fofo pode não ser unanimidade entre amigos e familiares que freqüentam a casa. Nesse caso, para evitar o encontro (quase sempre desastroso) entre uma convidada de vestido fino e meia-calça e um totó ouriçado pulando em sua perna, mantenha os pets presos enquanto as visitas estiverem na casa. “Não é correto impor a presença do cachorro a todos”, ensina a consultora de moda e etiqueta Gloria Kalil. A regrinha vale até para os visitantes que juram não se incomodar com a presença do animal. “O proprietário não deve causar desconforto aos convidados”, diz a consultora Celia Ribeiro, autora do livro Etiqueta no Século XXI, com um capítulo dedicado a donos de bichos. Manter o cão preso evita que ele peça comida à mesa do jantar ou que roube a carne do prato de alguém. Mas o cachorro precisa estar acostumado a ficar sozinho. “Caso contrário, ele pode se sentir abandonado, latir e causar um incômodo ainda maior”, completa o adestrador Dennis Martin.
7) Pense dez vezes antes de levá-los a shoppings e restaurantes
Antes de sair por aí com seu cão a tiracolo, tenha certeza absoluta de que ele é bem-educado. Por boa educação entende-se: não latir, não rosnar, não pular nas pessoas, não arrumar encrenca com outros cachorros e não cheirar mal, para ficar no básico. Locais por onde circula muita gente exigem cães socializados. “Alguns estranham o ambiente, o barulho e o excesso de pessoas e podem ficar agitados”, explica o veterinário Mauro Lantzman. Vários shoppings permitem a presença de cães de pequeno e de médio porte em suas instalações. É assim no Iguatemi, no Frei Caneca, no Villa-Lobos e no Higienópolis, o paraíso dos totós. Os dois últimos mantêm sua equipe de limpeza de prontidão para recolher qualquer sujeira à vista. “Para evitar imprevistos, coloco absorvente e calcinha feminina na fêmea”, conta a dona-de-casa Vera Gerusa de Faria, que circulava com seu casal de yorkshires pelo Villa-Lobos no último domingo. A secretária Lêo Canônico, moradora de Higienópolis, sai três vezes por dia com Dolly Maria, sua akita. Vai duas vezes por semana ao shopping. “Ela é o ar que eu respiro”, diz Lêo, que não fica constrangida quando entra em uma loja e sua cadela de 40 quilos se deita pelo caminho. Assim mesmo, toda espaçosa, como mostra a foto abaixo.
E, por favor, nada de dividir a praça de alimentação com o cão. Para não infringir as leis estadual e municipal que proíbem a entrada de bichos em bares e restaurantes, a maior parte dos estabelecimentos tolera a presença deles apenas na calçada ou em ambientes abertos. Nos poucos em que eles são bem-vindos no salão, caso do Farfalla, no Jardim Paulista, o dono tem de redobrar os cuidados. “O animal precisa vir almoçado, para depois não querer participar da refeição”, afirma a proprietária Alice Maria Dutra. Mesmo que a casa permita que o bichinho se sente à mesa, prefira deixá-lo no chão, amarrado à cadeira pela guia. “Venho aqui quase todo fim de semana com os meus cachorros Cristal e Apollo”, conta a jornalista Priscilla Merlino. “A cidade precisava ter mais restaurantes como esse, onde os cães são tratados como clientes.” O chef Alessandro Segato, do italiano Passaparola, na Vila Nova Conceição, até criou um cardápio para os bichos. O que tem para eles no menu? Ossobuco com tutano e arroz selvagem (19,90 reais) e ragu de cordeiro com legumes (23,80 reais), entre outros.
Respeite as regras do condomínio
O melhor amigo do dono pode ser também um dos piores inimigos dos vizinhos. Sim, queixas sobre cachorros estão entre as cinco reclamações mais freqüentes de moradores de condomínios. “Em todo prédio que eu visito, de todas as classes sociais, há pelo menos uma pessoa que tem problemas com cães”, afirma o advogado Marcio Rachkorsky. Especialista em direito imobiliário, ele arbitra conflitos em cerca de 250 condomínios da capital. Barulho provocado por latidos, sujeira e mau cheiro nas áreas comuns e no elevador são, nessa ordem, os principais motivos de brigas. Como não há lei específica para essas situações, o que vale é o regulamento de cada edifício. O cão vai ficar muito tempo sozinho no apartamento? Para evitar latidos indesejáveis horas a fio, não o prenda na varanda. Procure mantê-lo no quarto para que ele sinta o cheiro do dono e fique tranqüilo. Tente educá-lo para não latir ou chorar cada vez que você entra em casa. “Os seis cães do meu vizinho me enlouquecem todo dia com isso”, diz o promotor de eventos Renato Lucena, morador de um condomínio da Granja Viana. “Já apitei, gritei e até atirei bombinhas, mas nada adiantou. Hoje uso protetor auricular.”
Playground, jardins, piscina e áreas comuns não são quintal de cachorro, muito menos banheiro. No elevador, de serviço, claro, é educado carregar o cão no colo. Os de grande porte devem ser mantidos na guia e sempre atrás de seus donos, para evitar rosnadas caso entrem outras pessoas. Se o elevador estiver cheio, dispense-o e espere o próximo. Cerca de 90% dos conflitos são resolvidos com diálogo, advertências e, mais raramente, com multas ao mal-educado. Poucos chegam à Justiça, como o caso do administrador Antonio Roberto Testa. Ele decidiu processar seu antigo condomínio, no Campo Belo, por não punir a dona de uma poodle que tinha o mau hábito de sujar as áreas comuns. Depois de oito anos, Testa acabou perdendo a briga na Justiça. “Não foi uma decisão justa, mas não me arrependo”, diz ele, que se mudou do prédio. Mas nem sempre o dono do totó leva a melhor. Há dois anos, o empresário Carlos Eduardo Nahus, morador da Granja Viana, foi condenado à prisão e chegou a ficar uma semana na Cadeia Pública de Cotia. Em 2005, suas duas cachorras atacaram e mataram um pastor alemão e um cocker spaniel da vizinha. “Gastei cerca de 50?000 reais com advogados e tive de doar meus cães”, conta ele, que ainda se defende dos processos. “Ele incentivava as cadelas a pular no meu terreno”, afirma a vizinha, a pesquisadora Devani Salomão. “A morte dos meus cachorros abalou a família.”
9) Mantenha o animal bem tratado
Deixar seu bicho cheio de carrapatos, sujo, raivoso e preso é uma agressão e um prato cheio para encrencas com quem vive perto dele. Os animais podem transmitir doenças, contaminar o condomínio com fedor e, de quebra, virar motivo de queixas entre os vizinhos. É um direito do cão receber tratamento adequado. Isso inclui registrá-lo no Centro de Controle de Zoonoses – medida prevista em lei – e manter a carteira de vacinação em dia. Habitue-se a levar esses documentos quando sair à rua. Cães que vivem em apartamento, independentemente da raça, exigem banhos semanais e escovação diária. “Isso ajuda a eliminar os pêlos mortos, que causam mau cheiro”, diz o adestrador Alexandre Rossi. Zele também pela saúde psicológica dele. Dê atenção, carinho e ambiente adequado ao bichinho. Não o castigue, não o maltrate e evite mantê-lo acorrentado. Ele pode ficar agressivo. A convivência com as pessoas é fundamental para a boa educação. Por isso, o animal precisa sair para ver gente pelo menos uma vez por dia. Se você não tem tempo para isso, contrate os serviços dos passeadores de cachorros, os chamados dogwalkers. A cada vez que saem para uma voltinha, costumam cobrar 17 reais ou, então, mensalidades que variam entre 200 e 250 reais. “Costumo levá-los a praças para que eles se adaptem também a outros cachorros”, diz o passeador e adestrador Leandro Felipe da Silva, da Mundo Cão.
10) Guarde para você pérolas como: “Ele é mansinho. Só vai te cheirar”
Ninguém é obrigado a gostar de animais ou ter simpatia pelo cachorro do vizinho. Por isso, é constrangedor ouvir que o cão “não faz nada” ou que “ele vai apenas cheirar a sua perna”, como quem fareja um canteiro. Se o au-au tem cara de anjo, mas é anti-social, agressivo, ciumento ou simplesmente não gosta de interagir com estranhos, avise os que se aproximam dele. “Alerte a pessoa mesmo que ela tente só acariciar o bicho”, afirma a veterinária e psicóloga Hannelore Fuchs. É o que costuma fazer a administradora Rosilene Esteviano sempre que alguém chega perto de sua dachshund Sofia, de gênio extraforte. “Ela já matou dois gatos, comeu passarinhos, mordeu o nariz da minha mãe, meu sobrinho e até um vizinho”, conta Rosilene. Crianças costumam ser mais atrevidas e jamais devem ficar sozinhas com o bicho. Se mesmo assim ele ferir alguém, desdobre-se em cuidados à vítima. “Só pedir desculpas não adianta: é delicado pagar as despesas médicas e presentear a pessoa com flores”, diz a consultora de etiqueta Claudia Matarazzo.