Saramago chega ao céu

por Edson Aran

O grande escritor nas quintas do Paraíso

Era o cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento. Havia muita gente na íngreme escadaria que levava às quintas do Paraíso. Dos dois lados, encontravam-se bufarinheiros, estorninhos e amenjoeiros. No alto da escadaria, envolvo em névoa diáfana, estava Deus, que, ao avistar o escriba José Saramago, disse Que diabos faz este comunista a subir minha escada, ora pois?!

Saramago levou as mãos à cintura, ergueu a queixadeira e respondeu Ora, cavacos! Não vi placa alguma na cumeeira a proibir a entrada de materialistas ateus, ó pá. Vou entrar de qualquer maneira!

Como quer que seja, Deus emputeceu-se dentro de suas vestes divinas e sua voz trovejou na direção do gajo, Escuta aqui, ô seu funiculeiro, eu sou Deus Todo-Poderoso, Criador dos Céus e das Terras, Alfa e Ômega, e se digo que aqui tu não entras, tu não entras nem por um agigantado caralhal!

E viu Saramago que isso não era bom e decidiu a contra-argumentar. Disse ele Oh, Criador, não está mais aqui o rebotalho a provocar-te. Mas faça o obséquio de responder-me: se não entro aqui, devo ir-me para onde? Para o Inferno? Sim, trovejou a escalamatosa divindade epifanada, Comunistas ateus como tu devem arder eternamente nas chamas. Eu ainda não me olvidei daquele tomo que escreveste sobre meu filho com a mulher do carpinteiro, oh paquiderme pentecoste! Para o Inferno já!

Mas, obtemperou Saramago, isso não é castigo, pá. Se o inferno está cheio de comunistas, eu me sentirei em casa com meus pares. Conversaremos por horas eternas sobre as injustiças dos homens enquanto o fogo crepita nas catacumbas umbrosas. Eu serei mais castigado se permanecer aqui no Céu, com todos esses anjos e santos reacionários de direita.

Deus soergueu a sobrancelha sentiente, perscrutou o próprio pensar onisciente e disse, premente, Ó pá, e não é que o gajo estás a falar sensatamente? Não serás mesmo castigo se permaneceres entre os materialistas ateus! E Saramago, triunfante, esticou a perneira e pôs-se a subir a escada em passos lépidos, Então, com licença, Divindade, que já estou atrasado para as delícias, digo, as torturas do Paraíso Celestial.

Mas então a mão poderosa de Deus impediu a ascenção escadarial e o Criador disse Êpa, alto lá, filibusteiro! Disse que o Inferno não é castigo suficiente para tu, mas também não permiti que botasse os pés no Reino de Deus, ora cavacos! Saramago voltou a colocar as mãos na cintura feito um bule marxista e replicou Bem, se feneci e não posso permanecer no Inferno e tão pouco no Céu, então só me resta renascer, pois não? Poderei eu renascer em Paris ou Londres, Divindade?

E então Deus Todo-Poderoso refulgiu em brilho esfolioante, abriu a larga sorriseira e, muito feliz consigo mesmo, respondeu Oh, pá, sou um Deus de Bondade e Misericórdia, gajo escrevinhador! Vou deixar-te junto aos teus. Tu vais renascer é em Caracas, na Venezuela!

E José Saramago caiu das tamancas e gritou Nãããããoooo!, antes de desaparecer da vista de Deus.O Criador de Todas as Coisas então aferrolhou a ferraduragem da portada e murmurou de si para si Fodeste-te, paneleiro pascácio!




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