Só pode ser brincadeira, eu disse. @contosvidabreve

Brincadeira
Henrique Schneider

Só pode ser brincadeira, eu disse.

Só pode ser brincadeira, repeti, porque Sara sempre foi muito brincalhona, o riso colorido voejando sempre pela morada em que há cinco anos bem dividimos nossas vidas. Ela não respondeu nada, apenas me olhou com uns olhos desistidos (certo: é parte da brincadeira de Sara), enquanto continuava colocando as suas roupas na mala e repetindo apenas que não agüentava mais, não agüentava mais. Parecia dizer isso apenas para si, pouco importando se eu escutava ou não. Tentei tocá-la, a fim de que me olhasse e então prestasse em mim alguma atenção maior, mas ela evitou aquele toque com uma violência medida, exata (Sara sempre elabora bem as suas brincadeiras), e fechou a valise sem maior cuidado, deixando esquecidas umas tantas peças, os armários cheios, como se tivesse pressa. Dentro da maleta, só as mudas de roupa mal escolhidas de quem parece que precisa fazer uma viagem de última hora. Apenas me olhou num instante para dizer que voltaria outro dia a buscar o resto, quando eu não estivesse em casa (me olhou séria, ela; impressionante como consegue não rir nestas horas). Então foi à estante e agarrou meia dúzia de livros, sem se ater em demasia a qualquer dos títulos, e aí também parecia que apenas desejava sair dali o mais rápido possível, mas o que fez foi andar até o aparelho de som, sem olhar para mim (sempre como se eu não estivesse ali, ela finge bem). Escolheu uns tantos discos, dez, doze, todos os ritmos, e quando reclamei por um deles, entrando eu também na brincadeira, ela o atirou no chão como se a música não prestasse mais. Depois, nem prestou atenção à caixinha quebrada. Colocou os livros e os CDs numa sacolinha de juta que, passando por mim ainda como se eu não existisse (é claro, isso faz parte da brincadeira, eu já disse que Sara sabe brincar bem), pegara num sopetão, pendu rada atrás da porta da cozinha. Tudo como se estivesse brava e sozinha em casa, com ninguém mais – os jogos de Sara sempre estudados, sempre. E então me atravessou novamente, carregando as poucas roupas e os livros e os CDs, abrindo com decisão a porta do apartamento e fechando-a numa batida brusca e seca, saindo sem se despedir, sem sequer olhar para mim. Fiquei um tempo esperando que a porta abrisse novamente e ela voltasse sorrindo e dizendo que era tudo brincadeira, mas não: Sara não seria amadora de fazer isso assim tão logo, desfazer tão rapidamente o jogo, e então o apartamento ficou em silêncio. O silêncio. Mas ela vai voltar daqui a pouco, tenho certeza. Porque isso que ela fez é uma brincadeira, só pode ser.

Tem que ser.




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