Henrique Schneider
Ninguém sabe se no início da noite eles se conheciam. Mas a verdade é que, algumas horas e muitas cervejas depois, já eram os melhores amigos desde o nascimento. O fato de não saberem o nome um do outro era pouco importante: àquela hora nenhum dos dois já sabia mais o próprio nome.
O garçom ia e vinha trazendo as bebidas e uns petiscos, que eles comiam por obrigação, enquanto davam gargalhadas das anedotas contadas. Depois de um certo tempo, os dois já riam das anedotas não contadas. Só ficaram sérios por um instante, quando o garçom anunciou que o bar ia fechar. Eram três da manhã e não havia mais ninguém por ali, explicou o homem, compreensivo: tantos anos de bar lhe haviam dado esta condição meio psicóloga.
“Eu te levo até tua casa.” – decidiu um dos amigos, enquanto ambos tentavam levantar com alguma dignidade.
“Não precisa se incomodar.” – disse o outro, língua enrolada.
“Amigo é prá essas horas. Todas horas.” – filosofou o primeiro.
E foram, rindo, cantando, incomodando os que dormiam, meio que amparando-se um no outro – e assim ninguém caía. Quando chegaram à casa, o homem já tentava colocar a chave errada na fechadura – a dificuldade inocente dos bêbados – quando decidiu:
“Tu me trouxe em casa, agora eu te levo em casa.”
E seguiram o caminho novamente, ainda cantando e resolvendo os problemas do mundo em seus discursos solenes. O outro morava longe; quando chegaram, o sol já dava seus ares no horizonte.
“Agora é a minha vez de te levar.” – disse o que havia chegado.
*****
Há quatro dias que os dois fazem este caminho largo, um pouco abraçados, amparando-se um no outro. Não parecem cansados e talvez a essa hora até já saibam um o nome do outro. Os problemas do mundo, aos poucos, vão sendo resolvidos. Só param de resolvê-los às vezes, quando decidem cantar uma nova canção ou encontram um boteco aberto.