A poesia como uma forma de luta

Por volta de 1850, o número de jornais que circulam no Brasil aumenta intensamente. A produção de papel mais barato, feito de celulose, substituindo os dispendiosos linho ou algodão, permitiu que isso ocorresse. Mudanças sociais também estimulam a intensificação da produção jornalística. A partir da referida data – que encerra o tráfico de escravos africanos – a sociedade brasileira começa a discutir como e quando ocorreria o fim da escravidão. Tal debate aconteceu principalmente através da imprensa. Abolicionistas recorrem a várias formas de sensibilização da opinião pública. Poesias são sistematicamente utilizadas nesses embates; poetas profissionais e amadores mobilizam sentimentos de compaixão e revolta. Em 1884, o jornal “A Vela do Jangadeiro” publica os seguintes versos anônimos: “Tu – alma de lodo – feroz egoista/  Q´não conheces do tempo a evolução/ E, retrogadando es-escravagista,/ Verás o sol da redempção/ E teu nome escripto em negra lista/ No dia em que morrer a – escravidão”. Trata-se de um exemplo, entre milhares. Por isso mesmo é possível afirmar que a poesia foi uma arma na luta pela Abolição. Para saber mais, clique aqui





O que você costuma fazer antes de dormir?

O que você costuma fazer antes de dormir?

por Ana Lou para Página da Cultura

Todos nós temos hábitos que de uma forma ou outra definem nossa personalidade. Perguntamos a escritora e nossa colaboradora Mary Del Priore qual hábito ela tem antes de dormir. Leia abaixo a resposta! leia mais »





Mary Del Priore e o Amor no Brasil

por Ana Lou para Página da Cultura

Uma das primeiras coisas que aprendi logo que entrei na faculdade de História foi que a história da humanidade sempre foi contada pelos vencedores. Pouco se sabia sobre quem construiu as pirâmides ou sobre como pensava o servo que trabalhava cotidianamente no feudo do seu senhor.

Contudo, com a nova historiografia mais conhecida como a Escola dos Annales fundada inicialmente por Lucien Febvre e Marc Bloch nas primeiras décadas do século XX damos início ao estudo das minorias: queremos saber como pensam os trabalhadores,  seus hábitos, valores, enfim seus costumes. leia mais »





Motivos para o escravo ser bom cristão

Os livros que tratam da relação entre Igreja católica e escravidão geralmente enfatizam que a religião promoveu a aceitação desse sistema social injusto e desumano. Aliás, não se trata de uma especificidade do Brasil colonial. Há passagens na Bíblia em que os escravos são orientados a obedecer aos respectivos senhores. O apóstolo Paulo, em suas epístolas, alertou a dois deles a retornarem a casa senhorial. Algumas pesquisas, porém, revelam que eventualmente – e até mesmo a contragosto – as autoridades eclesiásticas podiam se juntar aos escravos em contraposição aos senhores. O historiador Stuart Schwartz revelou uma dessas situações ao lembrar a quantidade de feriados religiosos no período colonial. Na época da safra de cana havia 61 dias em que o trabalho era proibido pela Igreja católica. Em outras palavras, justamente nos meses em que os escravos eram “moídos” em jornadas de 10, 12 ou 14 horas, eles podiam contar com apoio do capelão ou pároco local para condenar o fazendeiro que desrespeitasse a suspensão das atividades nos domingos e dias santos. Sem dúvidas, muitos afrodescendentes foram salvos de morrer de exaustão pelo catolicismo. Para saber mais….





O trem atropelou o camelo

Antecipar o futuro é algo impossível. A história revela isso quando analisamos a ideia de futuro de cada época. No século XIX, por exemplo, antes da invenção do trem discutia-se como seria feito o transporte em massa das mercadorias do nascente capitalismo. Uma proposta que encontrou muitos adeptos foi a de utilizar dromedários, também conhecidos como camelos árabes, nesse transporte. Diversos países fizeram experiências de aclimatação do bicho, como USA, Espanha e Itália, Peru, Jamaica, Bolívia e Cuba. No Brasil, coube ao Ceará a importação da espécie, que se destaca pela força física, sendo capaz de carregar entre 150 e 300 kg. Em 1859, chegaram a Fortaleza 14 animais. Os bichos quase todos morreram ou mesmo acabaram sendo vendidos a circos. A implantação de ferrovia desestimulou novas importações. Em termos de meio de transporte de mercadorias, o trem atropelou o camelo. Para saber mais, clique aqui

 





As histórias de Gilberto Freyre

por Analou  para Página da Cultura


Sobrados e Mucambos escrito por Gilberto Freyre é um dos livros favoritos da escritora e nossa colaboradora Mary Del Priore.

Neste livro o autor analisa “a decadência do patriarquismo do Brasil rural, ocorrida no século XIX. O título é uma referência aos antigos aristocratas, que, com o declínio do regime escravocrata brasileiro, tiveram que se mudar da casa-grande para sobrados em áreas urbanas. Por conseguinte, os ex-escravos também deixaram as senzalas para morarem em casebres de palha e barro em bairros pobres de áreas urbanas.” leia mais »





A revolução sexual como dever de casa

Chegará o dia em que nossos netos estudarão o século XX como um período já longínquo. Quando isso ocorrer, não será estranho que nos exercícios “para casa” constem perguntas a respeito da “revolução sexual”. É bom nos precavermos. Um primeiro passo é compreender a cronologia da mudança. A revolução sexual lutou contra uma sociedade em que várias instituições (família, igreja, escola etc) proibiam algo que parece óbvio hoje em dia: o direito em relação ao próprio corpo. A década de 1960 é considerada como marco nesta luta. Uma característica interessante desse período é que ele foi precedido por vinte anos nos quais o sexo deixou de ser associado à morte. Tal associação foi comum até os anos 1940, pois desde o século XVI a sífilis era considerada uma doença sexual incurável e mortal. A invenção e generalização da penicilina tornaram possível a cura deste mal. Os anos 60 também em muito antecederam ao surgimento de uma nova e devastadora doença sexualmente transmissível: a AIDS, identificada somente em 1980. Como se vê, nos últimos quinhentos anos, a década da revolução sexual foi uma época incomum.  Para saber mais, clique aqui

 





Do milk shake à maconha

O consumo de maconha teve origem na Índia, há milhares de anos. De lá se espalhou em direção a várias áreas européias e africanas. Nesse último continente, a planta chegou via o oceano Índico, atingindo Moçambique e de lá novamente se espalhando. Há registros do uso de maconha em Angola do século XVI. Nesse século, a cannabis sativa atravessou o oceano Atlântico, acompanhando a rota do tráfico de escravos. Ao longo desse processo, recebeu outros nomes: pango, diamba, riamba, fumo de Angola etc.

Há mais de trezentos consome-se maconha no Brasil, mas esse consumo geralmente era associado a grupos sociais marginais, primeiramente escravos e depois criminosos. Na década de 1950, o costume migra para a turma do milk shake, ou seja, rapazes e moças da classe média. Conhecer esta história é o primeiro passo para entender o problema. Para saber mais, ver





@ Jean Genet

por Mary Del Priore

Nas ruas das grandes cidades brasileiras já é possível ler em muitas camisetas “100% negro!”. Desde os anos 80, teve início um debate interno sobre a diversidade cultural e racial do brasileiro. A maior parte destes debates contaminou à consciência negra pela brecha da cultura popular. A música e as escolas de samba tiveram, nesse sentido, um importante papel mobilisador. A busca da “pureza africana” acompanhou-se também de uma crítica feroz ao sincretismo. Finalmente, a aprovação de cotas para os afro-brasileiros na universidade e no funcionalismo público acabou por negar a fábula do encontro harmonioso entre as três raças. Durante muitos anos, os negros aceitaram a ilusão de que a mestiçagem poderia ser a solução para a discriminação racial, diluindo a cor em casamentos mistos. Mas a questão da raça está também ligada à da posição social: quanto mais sobem na escala social, mais negros se tornam brancos. leia mais »





BB: notícias de outro mundo

@Brigitte Bardot

por Mary Del Priore

Deslumbrante no filme “E Deus criou a mulher”, em entrevista recente a um jornalista suíço, revelou-se, contudo, uma niilista. Ela considera que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Seu ódio ao gênero humano é contrabalançado por seu apego aos animais. Inchada, enrugada, desprovida de todos os traços físicos que a consagraram, Bardot é o retrato da mulher que, depois de ter tido tudo, numa bandeja de ouro, optou por uma vida, segundo ela, “ridicularizada e rude”.

Perguntada se se sentia responsável pela revolução sexual dos anos 70, respondeu que não e que essa, pouco lhe importava. Godard, um gênio? Sim, “gênio de araque” que soube “entediar com jeitinho”. A beleza, no mercado: “está em vias de extinção – assim como certas espécies”. E explica: “em proveito da banalização, do consumo, da grana, do cimento, da degenerescência humana, dos liftings, das lipos e outros horrores, que o século XXI nos inflige. A quantidade matou a qualidade”. Sempre foi feminista? Resposta curta: “As mulheres que merecem, devem ter o lugar que merecem – as outras, já para a cozinha. Se comeria menos mal…”. Amores? Cada idade com os seus prazeres. Os dela “evoluíram com o tempo, esse escultor”. Bardot, uma libertina? “Nunca, mas uma apaixonada. Afinal, ao diabo com a avareza!”. Revê seus filmes, indaga o jornalista? “Não me revejo mais. Evito tudo o que seja o passado”. E o envelhecimento? “Aceito tudo o que é natural. É uma decomposição antes da hora. Não é engraçado, mas é assim.” Sobre sua relação com os animais, não economiza:

“Meu amor (pelos animais) faz de mim uma pessoa muito próxima da natureza, muito próxima do reino animal, que raciocina com o coração, seu instinto, suas revoltas sadias, uma pessoa infeliz de viver no mundo em que vivemos. Sou alguém que se protege dessa humanidade desumanizada, robotizada […] sinto-me mais próxima dos animais do que dos humanos, mas não tenho nem sua inteligência, nem sua coragem para viver num universo hostil”. Afinal, a humanidade lhe inspira “profundo desprezo” e se ela “pudesse se restringir ao estrito mínimo o planeta estaria salvo”. A gentileza? “Uma bobagem que ajuda a viver num mundo de brutos” e o “pé na bunda, indispensável para avançar na vida”.

Em 1964, BB esteve no Brasil, em Búzios, Rio de Janeiro. Fascinou os fãs. Anos depois, contudo, Tom Zé lhe dedicou uma música premonitória: A Brigitte Bardot está ficando velha, envelheceu antes dos nossos sonhos. Quando a gente era pequeno, pensava que quando crescesse, ia ser namorado da Brigitte Bardot, mas a Brigitte Bardot está ficando triste e sozinha. Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar, na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar?

Dá no que pensar, não?

Mary Del Priore, historiadora e sócia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Publicou Histórias íntimas, Planeta do Brasil, 2011, Uma Breve História do Brasil, Planeta do Brasil, 2010, Fazendas do Império, Ediora Fadel, 2010, História do Esporte no Brasil – do Império aos dias atuais. Unesp, 2009, Ao sul do corpo. Unesp, 2009, Corpo a corpo com a mulher. Senac, 2009, Matar para não morrer. Objetiva, 2009, Condessa de Barral. Objetiva, 2008, O príncipe maldito. Objetiva, 2007, Cachaça – alquimia brasileira. 19 Design, 2006, Uma história da vida rural no Brasil.Ediouro, 2006, História do amor no Brasil. Contexto, 2005, História das mulheres no Brasil. Contexto, 2004, Livro de ouro da História do Brasil. Ediouro, 2004, Ancestrais. Campus, 2003, O mal sobre a terra. Topbooks, 2003, Os senhores dos rios. Campus, 2003, Festas e utopias no Brasil Colonial. Brasiliense, 2002, Histórias do cotidiano. Contexto, 2001, Esquecidos por Deus. Companhia das Letras, 2000, Família no Brasil Colonial. Editora Moderna, 2000, Mulheres no Brasil Colonial. Contexto, 2000, Revisão do paraíso. Campus BB, 2000, 500 anos de Brasil. Editora Scipione, 1999, História das crianças no Brasil. Contexto, 1999, Monstros e monstrengos do Brasil. Companhia das Letras, 1998, A ordem dos livros. UNB, 1998, O Canibal. UNB, 1997, Religião e religiosidade no Brasil Colonial. Editora Ática, 1997, Documentos de História do Brasil. Editora Scipione, 1996 e A mulher na História do Brasil. Contexto, 1994





A origem do “pivete”

Entre fins do século XIX e início do XX, surgem queixas em relação a crianças vadiando em ruas das capitais e cometendo pequenos furtos. Por essa época, começa a ser utilizada a palavra “pivette” (com dois “tt”) para caracterizar os menores infratores. Ironicamente, o termo tinha uma origem bastante elitista. Seguindo a moda francesa da época, jornalistas e escritores, como João do Rio, adotaram a palavra de origem provençal. Seu significado era “erva daninha” ou “erva”. Uma lei de 1888, que regulava os preços dos produtos comercializados nas estradas de ferro paulistas, registrou, inclusive, a expressão “pivetes medicinais” para caracterizar as “ervas medicinais”. Saiba mais