Trilhas curtas para o inferno

Correio da Bahia / Data: 19/2/2005

Luís Antônio Giron cria narrativas baseadas em seus próprios pesadelos

Em seu novo livro, `Até nunca mais por enquanto´, o gaúcho Luís Antônio Giron rompe com o que chama de `realismo urbanóide´ e fala de suas aflições em textos curtos. O jornalista e escritor gaúcho Luís Antônio Giron concebeu seu primeiro livro de narrativas curtas com o claro propósito de levar o leitor ao inferno. Da falta de identidade, frise-se. E o mais curioso é que ele consegue seu intento. Até nunca mais por enquanto, lançado pela Record, é uma obra estranha e deve incomodar quem está acostumado a consumir ficções realistas. Isto porque o autor optou pelo uso da linguagem como personagem dramático das histórias baseadas em seus próprios pesadelos. O resultado são narrativas que subvertem a compreensão como Musa imunda, historieta que abre o volume. Aliás, os títulos dos contos são um capítulo à parte. Um após o outro, os tormentos de Giron atendem por Avestruz no vergel, Tião, corvos e capeplufos, Execrável belvilacqua ou eternos chefes, Nimbado de cloro, Poer-luna.

Mas intrigante mesmo é o título do livro, dito por um personagem do conto O conde molhado. “Entendo o oxímoro ´até nunca mais por enquanto´ como a legenda explicativa dos nossos tempos. Tempos de fluidez em todos os campos do saber, da ética, da estética e da sexualidade. A expressão sintetiza o livro, pois os contos são imantados por essa força instável, capaz de oscilar entre o casual (por enquanto) e o irreversível (nunca mais)”, explicita o autor. Editor de cultura da revista Época, Giron apostou no estranhamento porque acredita que a ficção realista tende a rebaixar a literatura à condição de arte mimética. “Lançar o livro neste momento é mesmo proposital: é preciso romper com o realismo urbanóide, o consumismo da escrita, as historietas auto-indulgentes que desprezam 400 anos de narrativa do Ocidente”, pontua. Na opinião do jornalista, a escrita de invenção e a ficção não-realista deixaram de ser moda. “O que é muito positivo para elas. Talvez seja a hora de o experimentalismo ocupar seu posto na ponta-de-lança dos avanços literários.

Não se trata de refugar a literatura convencional, mas de reintroduzir o peso específico da ousadia no trabalho da invenção, porque a ficção não deve apenas retratar um episódio ou enredo, mas precisa construir um mundo de palavras”, defende. A narrativa assumidamente baseada nas aflições do autor flerta com referências surrealistas que, no entanto, são completamente refutadas pelo jornalista. “Parece-me um termo redutor, embora eu remeta a autores ”supra-realistas” como Campos de Carvalho, Hilda Hilst, José Agrippino de Paula e Rosário Fusco. No que concerne à minha escrita, limito-me a ser sincero comigo mesmo e com o que penso. Há escritores que hipnotizam o leitor e o fazem dormir. Quero fugir disso! Desejo arrancar o leitor dos seus sonhos mais lindos, carregando-o para o círculo dos pesadelos”, provoca. Luís Antônio Giron publicou seu primeiro conto em 1977 e, desde então, tem escrito ficção em paralelo ao seu trabalho jornalístico. Especializado em artes cênicas e mestre em musicologia, escreveu Ensaio de ponto; Mário Reis – O fino do samba; Minoridade crítica: a ópera e o teatro nos jornais da corte e Teatro completo de Gonçalves Dias.




*nome

*e-mail

site ou blog

comente a postagem :: tentativas de contato por comentário serão bloqueadas