Trocar os papéis

por Henrique Schneider

Wanderlea chegara esbaforida em casa, ainda atarantada das reuniões do trabalho e já atrasada para começar o jantar, quando percebeu, surpresa, que a mesa estava posta. Mais que isso: Ronivon escolhera os pratos e talheres que usavam apenas quando recebiam visitas solenes, os guardanapos de linho que haviam ganho no casamento, a toalha bordada que Wanderlea herdara da mãe. Os copos de cristal dispostos para vinho e água, sem outra escolha – porque ninguém poderia estragar todo aquele capricho bebendo refrigerante.

Decerto o marido havia aprontado alguma e buscava desculpar-se ainda antes de contar, pensou Wanderlea, enquanto já pegava a faca para descascar legumes: dividia a preocupação, agora, entre o cardápio e as previsíveis explicações de Ronivon.

Mas quando olhou para o forno, percebeu que não precisaria se preocupar com a janta: pesquisando com notável esforço os livros de receitas da mulher, o marido havia conseguido colocar no fogo uns filezinhos de porco cobertos com molho de queijo gorgonzola. E no fogão, o arroz branco fervilhava na panela.

“Posso saber o que é que significa isso?” – perguntou Wanderlea, verdadeiramente curiosa.

“Nada. Só estou fazendo um jantar para nós.” – explicou o marido.

“Sim, mas… por quê?”

“Por nada, amor.” – (ele nunca a chamava assim) – “É que tu corres o dia inteiro no trabalho e quando chega em casa não tem nenhum descanso: vai direto colocar a mesa, preparar o jantar, arrumar alguma coisa, reparar a casa. E eu só pego uma cerveja e fico olhando o jornal. E de repente me dei conta de que isso é injusto, que eu posso fazer muito mais do que faço. E que tu também tens o direito de descansar. Trocar os papeis, sabe? Por isso estou fazendo este jantarzinho.”

Trocar os papeis, pensou Wanderlea – um silêncio incomodado. Preparar um jantar na vida, para Ronivon, era trocar os papeis; decerto mais adiante deixaria a louça na pia. Ela não sorriu; apenas disse que, se estava livre, então iria tomar um banho.

“Vai, querida – ele acedeu – “Pode deixar que eu cuido de tudo.”

Quando Wanderlea voltou, o jantar já estava pronto; Ronivon, ansioso, apenas a esperava.

A mulher sentou-se sem maiores sorrisos, enquanto ele a servia com o cuidado de quem acaba de construir uma obra-prima. Depois, ficou ele, faca na mão, apenas esperando que a esposa provasse a sua façanha.

“E então? Como está?” – perguntou o marido, enquanto Wanderlea mastigava com suavidade o primeiro bocado.

Trocar os papeis, ela lembrou. Trocar os papeis.

“Falta sal.” – respondeu ela.




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