Tudo tem um significado

por Dora Lorch

Costumo pedir para as crianças que atendemos no projeto Florescer da Fábrica que desenhem suas famílias para que possamos perceber situações que elas normalmente não demonstram, já que no desenho estão representadas as relações familiares da criança.

Mas nem sempre conseguimos entender de imediato o que elas mostram nos desenhos. Foi exatamente isso o que aconteceu com Samuel. Todos os dias, durante meses, ele desenhava a traseira de um carro. E por mais que tentássemos interpretar os seus desenhos, ele não aceitava a nossa conclusão.

Sabíamos que seus pais estavam separados e que Samuel não se entendia muito bem com a madrasta, que tinha lhe dado um irmão. Mas ela não era tão importante para que ele quisesse representá-la. Quanto ao pai, era uma pessoa presente em sua vida. Vinha visitá-lo, costumava levá-lo para passear e mandava torpedos durante a semana.

Sua mãe, dona Shirley, reclamava do ex-marido, alegando que ele não pagava a pensão do Samuel e se comportava como um adolescente. Ela gostava do filho e cuidava dele com esmero. Pelo menos era o que parecia. Procurou o Florescer da Fábrica porque Samuel estava com problemas na escola. Mesmo depois que veio para o projeto, as dificuldades se multiplicaram e ele acabou mudando de escola.

Eu fui contra, mas a mãe insistiu na mudança, que trouxe excelentes resultados. Samuel era outro menino: integrado, participativo, cumpridor de seus deveres e com boas notas no boletim escolar. Estávamos no começo do ano e acreditávamos que o clima entre mãe e filho ficaria ameno. Mas as brigas se intensificaram.

Era claro que havia algum problema que não estávamos conseguindo identificar. Decidimos chamar a mãe para uma conversa. Ela chegou aflita e começou a falar com um tom azedo, como se estivesse em um tribunal. Reclamou muito do mau comportamento do filho. Disse que ele não ajudava nas tarefas domésticas, chegava tarde em casa e só queria ficar com os amigos. Tudo isso era verdade. Mas ela não falou sobre as melhorias de Samuel na escola. Afinal, não tinha mais reclamações.

Ele estava tão envolvido com as atividades escolares que, na reunião de pais, foi elogiado. Percebemos que a mãe só conseguia ver os defeitos do filho. Não mencionou nenhuma palavra de reconhecimento pelo seu esforço. Como é possível viver com tantas críticas? O pai, diferentemente da mãe, agia exatamente o contrário. Ele valorizava o filho por suas conquistas e seu comprometimento.

Aquela mãe estava de costas para o empenho do filho. Era isso o que ele representava insistentemente em seus desenhos. Apesar do amor, do carinho, da responsabilidade em criá-lo e de estar ao seu lado a maior parte do tempo, esta atitude comprometia o relacionamento entre mãe e filho, deixando ambos infelizes.

Acredito que os pais, de maneira geral, ficam muito aflitos quando os filhos têm problemas e querem que tudo se resolva rapidamente. Não dão tempo ao tempo. Educar é um processo, exige continuidade. Acertamos uma questão, mas há sempre muitas outras que precisamos aperfeiçoar. Por isso, é fundamental que pais e educadores possam valorizar as barreiras que as crianças, os adolescentes (e também os adultos) ultrapassam, antes de cobrar novas mudanças. É preciso focar no que é verdadeiramente importante e minimizar o que é secundário. Não podemos vencer todas as batalhas. E, cá entre nós, reconhecimento de quem a gente gosta é um incentivo e tanto.




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