Um crítico em busca dos antepassados
por João Luiz Sampaio
O Estado de S. Paulo / Data: 22/3/2004
Luís Antônio Giron lança livro sobre o surgimento da crítica musical no Brasil
Somos todos herdeiros dessa tradição, constata o jornalista e crítico musical Luís Antônio Giron. Ele se refere a Machado de Assis, Gonçalves Dias, Martins Penna, José de Alencar. São todos membros das primeiras gerações de críticos musicais brasileiros. E alguns dos personagens de Minoridade Crítica, livro que Giron lança hoje (22.03) na Livraria Cultura, um olhar sobre os primórdios da crítica no Brasil. “Estou há 21 anos no jornalismo cultural”, conta Giron. “E sempre me intrigou o fato de a crítica ser tão odiada, hostilizada. Foi um dos primeiros impactos da minha vida profissional.” Daí o interesse em voltar “a seus antepassados” e tentar entender a atmosfera em torno do crítico e do jornalista cultural. E a constatação de que a crítica é uma área desprezada, deserdada da história. “O menosprezo à produção artística da época é grande e ainda maior em relação àqueles que atuaram como folhetinistas de espetáculos de suposta pródiga vaidade.
Verificar em que consistia a atividade desses primeiros críticos, reunir e analisar os textos à luz dos movimentos estéticos da época, interpretar sua origem, linguagem e estrutura e examinar de que forma ela influenciou a formação da idéia de nacionalidade no Brasil são os fins desse estudo”, explica Giron na introdução. A real efervescência da crítica no Brasil, revela o livro, surge entre 1822 e 1861. Na história do País, a fase engloba o Primeiro Império, o período regencial e as primeiras duas décadas do reinado de D. Pedro II. No universo da crítica, é o momento da “efetiva emergência da necessidade do raciocínio estético no Brasil, com a emergência das publicações literárias e musicais”.
A colocação, lado a lado, desses dois universos não é despropositada. Um dos aspectos defendidos pelo livro é a importância de se entender as críticas como manifestações que não podem ser dissociadas de todo o contexto político, econômico, social e mesmo cultural. Para citarmos apenas um exemplo, Giron mostra como com a maioridade de D. Pedro II, o tom subjetivo, de exagero, e paixões partidárias por sopranos, ou mesmo a ofensa pessoal, vão gradativamente dando espaço a reflexões mais austeras. Mas, de volta às paixões desenfreadas, o livro também mostra como esse caráter subjetivo, que várias vezes esbarra no tom literário, é componente muito importante da atividade crítica do período. E é fascinante ler as críticas que compõem o anexo ao livro. São textos nos quais autores como José de Alencar e Machado de Assis, assim como outros escritores, comentam montagens de óperas e espetáculos teatrais.
Entre a lista de anexos, há uma preciosidade, um texto no qual Machado, em outubro de 1859, analisa a figura do folhetinista,“ uma das plantas européias que dificilmente se tem aclimatado entre nós”, promovendo uma reflexão sobre o papel do crítico. Fecha-se assim um livro que, ao narrar os primórdios da crítica, revela todo um universo: do início da carreira de autores como Machado de Assis à constatação de aspectos como o de que a crítica musical corresponde à chegada da música profana no Brasil, passando pela revelação da vida musical brasileira durante o Primeiro e o Segundo Reinados, possível de se depreender nos textos analisados.