Vida e obra de Pitoresco da Mata por @EdsonAran
Tweetpor Edson Aran
O regionalista que o Brasil esqueceu
O movimento regionalista brasileiro começou em 1946 quando Ariano Suassuna se pôs a dançar rebolation numa praça de Recife, para total desespero de Graciliano Ramos. Depois disso, a literatura brasileira jamais seria a mesma. No país inteiro, escritores se enfiaram em suas tocas para criar uma ficção nacionalista que valorizasse os aspectos mais regionais de cada região.
Entre esses grandes autores estava o romancista mineiro Pitoresco da Mata, conhecido internacionalmente como “O James Joyce do Vale do Mastruço” e regionalmente como “Aquêli Véi Fedaputa Qu’iscreve”.
As histórias de Pitoresco da Mata são sempre ambientadas na árida região do norte de Minas, que faz confluência com o sul da Bahia e muita indecência com o leste de Goiás. Seus personagens são tropeiros, cangaceiros, fazendeiros, posseiros, um porco, um jumento e dois tatus. Sendo que o porco se faz passar por vaca em pelo menos metade de “Nhá Inhaca das Banda du Furdunço” (1946), romance mais famoso do autor.
Grande estilista da linguagem, Pitoresco da Mata reproduz a linguagem oral, anal e vaginal dos nativos do Vale do Mastruço, a região mais atrasada e selvagem do interior do Brasil. Ou, nas palavras do catedrático Gilberto Freyre, “a civilização só chegou ao Vale do Mastruço nos anos 60, mas foi recebida a paulada e pegou o trem de volta no mesmo dia”.
Os ousados vôos literários de Pitoresco da Mata garantiram o imediato respeito da crítica que, sem entender nada e com medo de ser considerada ignorante, proclamou o autor um gênio incompreendido e foi pra casa.
Fora do Brasil, o espanto foi geral. Ao ler um dos livros de Pitoresco da Mata, o escritor irlandês James Joyce teria dito: “Some body help-me-him! The fuckinguy has something in his throat!” (“Acudame-ele! Essomem tá c’uma porra entalada na g(ar)ganta!”).
Além do já citado “Nhá Inhaca das Banda du Furdunço”, Pitoresco da Mata escreveu “Quem Cumeu o Treim da Jabiraca” (1951), “A Fidumaégua é Uma Fidumaputa” (1953), “Nonada não, Nonô Naná” (1961) e “As Unhada da Vaca da Tua Muié” (1972).
Reproduzimos a seguir um trecho de “Nonada não, Nonô Naná” que mostra toda a inventividade lingüística de Pitoresco da Mata:
“Nhéééé… mas cê é bêss mêss, Ordinérso Treim-a-tôa!”
“Mas foi, uai, mas foi. Tava lem riba no teiado, que’u vi!”
“Viu boss ninhuma, seu disgramado do caraio!”
“Ói queu ti mêtu êssi facão nus búchu, pingaiada fedaputa!”
“Uai, cê num é bêss…”
“Ô si sô… ói só… toma, fidacadela!”
E o vermêi pretejô as foia vêrdi da capueira.